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Hoje batemos um papo com Michael Love Michael, artista norte-americano que estampa a capa de janeiro da playlist graças à faixa “Richard”. Michael tem 33 anos, mora em Nova Iorque e explica que seu nome artístico é “espiritual” e que foi adotado após ter tido um encontro com uma versão de si mesmo em um sonho. Vamos às perguntas!

NB: Quais foram as inspirações ou influências por trás de “Richard”? E como foi o processo criativo da música?

Michael: “Eu adoro “Richard” – é uma perspectiva interessante sobre a solidão e como você se sente quando alguém que ama vai embora. (A música) tem dois significados para mim. Ela foi escrita para um parente meu, que faleceu aos 16 anos. Minha visão sobre a vida dele é de que viveu uma vida solitária, com muito sofrimento, mas a canção revive algumas das minhas lembranças favoritas de nós dois dançando ao som de discos de Soul Music na sala da nossa avó, durante a infância. A faixa também menciona um antigo romance que demorei muito para superar. Eu me agarrei às memórias do que fizemos e às fantasias do que queria que tivéssemos feito.  Esse sonho sobre o passado traz um saudosismo para a música, eu acho.

Eu a produzi com Reuben Butchart no inverno passado (2020-2021). Eu já tinha a melodia para os versos  e a letra para o refrão, e sabia que queria fazer uma versão moderna de uma gravação antiga de Soul. Trabalhamos rapidamente para pegar os acordes no piano – aparentemente adoramos acordes complexos – e Reuben escreveu a linha de baixo incrível que vocês escutam, assim que decidimos a sonoridade do beat. É um som cheio de groove e profundo, e representa algo diferente no meu catálogo, que tem muitas gravações com influência de rock e música alternativa.  Mas (“Richard”) ainda tem uma certa esquisitice, como nos ad-libs, deixando-a com um sabor mais único.”

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NB: Quais outras influências fazem parte da sua construção musical?

Michael:  “Tive sorte de ter um gosto muito eclético desde pequeno. Em casa, a minha família costumava ouvir desde Roberta Flack e Donny Hathaway até o funk do Parliament e dos Ohio Players. Meu pai adorava rap e ouvia muito o rádio, e eu também curtia muito o Tupac e o Biggie. Na igreja eu adorava a música dos corais. Na igreja luterana que frequentava, eu escutava os hinos que tinham (um som de) órgão muito pesado e harmonias estranhas, e quando fui para igrejas não-denominacionais ou batistas, me interessei pela música gospel. Também adorava ‘girl groups’ como o TLC e o SWV. Na minha adolescência entrei de cabeça na música pop, minha artista preferida era a Britney Spears.

Em algum momento do ensino médio, eu tive aulas de teoria musical, canto e coro, e aos 16 eu consegui um programa chamado Fruit Loops, que usava para fazer beats e gravações sozinho. Além disso, estava compondo músicas com o piano. No final do ensino médio eu adorava qualquer gênero musical e me vestia como um punk rocker, mas sabia as letras de todas as músicas dos primeiros discos da Björk e do Nine Inch Nails. De alguma forma, tudo isso tem um papel na música que faço hoje.”

NB: O que você pode nos contar sobre sua cena local? E como ela funciona para artistas pretos/queer que estão divulgando suas músicas?

Michael: “Lancei meu primeiro álbum em agosto de 2020, após terminá-lo ao longo daquele ano enquanto a pandemia nos forçava ao lockdown. Tem sido difícil ter uma noção de ‘cena local’, porque em Nova Iorque as casas de show só reabriram no último verão (no meio de 2021). Mas desde então, agendei alguns shows e, pelo que consigo ver, (a cena) tem sido muito receptiva. Me apresentei ao lado de outros artistas queer, além de outros shows em grupo, e é muito divertido e afirmativo. Ao invés da falta de oportunidades presenciais, existem novas formas de construir comunidades online. Quero destacar a Queerantine, (apresentada por) Kisos e Corey Stewart, e todos os artistas que cuidam daquele espaço, garantindo que artistas queer fiquem conectados em uma comunidade digital acolhedora.

Entretanto, de alguma forma sinto que é mais difícil para artistas pretos/queer  promoverem suas músicas, pois muitos artistas brancos são atrações principais nas maiores casas de show – o que provavelmente é sempre um problema. Mas também existem nichos especiais para qualquer coisa que você faça em Nova Iorque. Acho que só leva tempo e paciência para encontrar um nicho e uma comunidade que realmente entenda o que você faz, especialmente hoje com a pandemia e com tudo que aconteceu nos últimos dois anos.”

NB: O que tem lhe desafiado como artista durante este período de pandemia?

Michael: “Tem sido difícil de se apresentar com frequência diante de várias pessoas, mas um fator positivo é que meu fluxo criativo não parou. Tenho feito música desde os 16 anos, mas precisei chegar aos 31 para ter coragem de lançar meu primeiro álbum. Obviamente, eu tinha que passar por mais experiências de vida antes que pudesse fazer e lançar a música que queria, então sem arrependimentos. Mas desde então, tenho escrito constantemente. Houve uma urgência (de criar) que veio com a pandemia, era vida ou morte. Por quê esperar mais tempo, quando eu poderia correr atrás dos meus sonhos agora?”

NB: O que você conhece de música brasileira?

Michael: Um dos meus colaboradores, Rich DaSilva é brasileiro e é um produtor e músico super talentoso, e ele costumava adicionar com frequência elementos de funk e samba aos ritmos que ele criava para as minhas músicas. Se você ouvir com atenção as minhas canções, irá perceber um pouco desses elementos aqui e ali. Acho que há alguns anos atrás, vi um documentário louco sobre a Mulher Melancia, que fez suas próprias músicas de funk, mas também fazia performances loucas ao vivo com todo mundo subindo no palco para dançar com ela. Só lembro de amar a cultura da performance na música brasileira e como ela unia as pessoas. Isso me inspira a colocar esse tipo de amor e energia na minha música. Também adoro Pabllo Vittar – a voz e a presença de palco dela são de outro mundo, no melhor sentido possível.”

NB: Quais são seus próximos passos para 2022?

Michael: “Para 2022, voltei a fazer aulas de canto uma vez por semana, além de aprender francês, tocar guitarra e trabalhar com um coreógrafo, tentando ir para o próximo nível para elevar o alcance da minha música. Quero sair em turnê e criar uma equipe pequena, além de expandir minha rede de colaboradores.

Tenho novos singles e clipes saindo em breve, e também planejo lançar meu segundo álbum, para o qual já tenho mais ou menos 25 músicas escritas ou gravadas. Estou muito animado para compartilhas mais canções minhas e continuar me desafiando musicalmente e evoluindo artisticamente.”

Como já é tradicional por aqui, sempre pedimos para que nossos entrevistados recomendarem outros trabalhos – álbuns, livros, filmes – para nossos leitores, e Michael fez uma grande lista. Confiram:

Álbuns:
FKA Twigs – Caprisongs
Tanya Tagaq – Tongues
Emma Ruth Rundle – Engine of Hell
Anna von Hausswolff – Live at Montreux Jazz Festival
Aaliyah – self-titled
Madonna – American Life
Teyana Taylor – The Album
Summer Walker – Still Over It
Doja Cat – Planet Her
Tinashe – 333

Filmes:
Passing (Direção: Rebecca Hall)
The Lost Daughter (Direção: Maggie Gyllenhaal)
Mulholland Drive (Direção: David Lynch)
Bamboozled (Direção: Spike Lee)

Livros:
On Writing (Autor: Stephen King)
Sisters of the Yam (Autora: Bell Hooks)
Orishas, Goddesses and Voodoo Queens (Autora: Lilith Dorsey)

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